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Albufeira Sempre

Diário sobre Albufeira.

Albufeira Sempre

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ALBUFEIRA DOS ANOS CINQUENTA

albufeiradiario, 28.06.06

QUANDO O FUTEBOL ERA UMA FESTA

ONDE SE FALA DO BEIRA-MAR

ZÉ D'ALBUFEIRA

Confesso que estou a ficar preocupado com a minha saúde mental. De cada vez que vão surgindo novas coisas (pseudo)modernas em Albufeira, mais vou ficando saudoso das coisas antigas, que tanto eram do nosso agrado e davam um cunho bairrista, já perdido de todo, à nossa terra.

Ainda há pouco, a propósito das notícias postas a circular de que o Fernando Barata pretende pôr termo ao futebol do Imortal (oxalá não passe de um boato ou, se for verdade, os sócios não permitam), me veio à memória, precisamente quando passava junto ao antigo campo de futebol do INATEL, a célebre equipa do Beira-Mar dos anos cinquenta, constituída com base em pescadores aqui nascidos, profissionais da dura pesca artesanal de então. 

Não havendo campeonatos federados ou associativos em que pudesse participar, disputava o Beira-Mar jogos amigáveis (aquilo, sim, era mesmo desporto na verdadeira acepção da palavra, praticado com fins de sã convivência e amizade, sem esquecer embora o verdadeiro espírito competitivo) com congéneres de povoações vizinhas.

Com agrado recordo a enorme rivalidade - saudável rivalidade -existente entre albufeirenses e quarteireiros, que em comum sulcavam o mar traiçoeiro, ganha-pão das respectivas famílias. Todos, os de lá e os de cá, falavam a mesma linguagam de dificuldades e privações - mas também, e por isso,  de solidariedade e fraternidade. Sentimentos que se repercutiam, claramente, na prática desportiva.

A sede do Beira-Mar era no café do João Veiga, na meia laranja, onde parava a camioneta da carreira, junto à praça da verdura. O João Veiga sempre foi um dinamizador do desporto em Albufeira, muitas vezes pagando do seu bolso, no Imortal e fora dele. Albufeira tarda em prestar a este seu filho a homenagem que lhe é devida (também pela acção cívica que teve, antes e depois do 25 de Abril, designadamente como vereador da Câmara depois da conquista da liberdade).

Os jogos eram disputados no ribeiro (actual avenida 25 de Abril, onde é hoje o Turial), num campo cheio de covas em que uma das laterais descrevia uma curva acentuadíssima, junto aos armazéns antigos da Albuera, e cujas balizas estavam desfasadas uma da outra. Feitas com vergas de lanchas e redes de pesca,  tinham medidas inferiores às oficiais. Mesmo assim (ou talvez por isso), dávamos cabazadas de oito, nove e dez a zero, para gáudio das nossas gentes.

Ao intervalo, bola esventrada na mão, recolhiam-se fundos para custear as despesas.

Os jogadores equipavam-se na Mocidade Portuguesa, com o beneplácito do sr. Álvaro Valeroso e graças ao voluntarismo do Flávio (que às vezes, apesar de uma deficiência física numa perna, também alinhava a guarda-redes).

A minha geração e a anterior ainda recordam, com um misto de saudade e gratidão, jogadores que fizeram as delícias da nossa juventude. Alguns vinham do mar, equipavam-se para jogar a seguir, sem descanso pelo meio.

Penitencio-me por ser injusto para aqueles de cujos nomes me não recordo, mas vou ter de mencionar verdadeiros atletas que povoaram o nosso imaginário, quais Águas, Matateus e Seminários: Artur Buca, Pé de Chumbo, Zé Lhuca, Tica, Bitoque, Filipe, Ricardino, Sete, Marinho, Shellinho, Eduardo Quibanaz (também basquetebolista fora-de-série) - e tantos, tantos outros, que hoje fariam corar de vergonha muitas das 'estrelas' do desporto local. 

Mais tarde, por acção do cabo Costa e do Fernando da Casa dos Pescadores, com a ajuda de gente anónima, principalmente dos próprios jogadores, dinheiro de pagelas vendidas fora da lota e máquinas cedidas gratuitamente por construtores (sem que em troca obtivessem benesses da autarquia), foi construído em  terreno camarário o campo do Cerro da Lagoa, no qual, antes de dispor do campo da Palmeira, o Imortal chegou a disputar jogos oficiais. Este recinto, construído pelo povo com dinheiro do povo, foi anos volvidos vendido pela Câmara, no tempo da outra senhora, à FNAT (actual INATEL) por cinquenta contos, numa operação nunca explicada e, ainda hoje penso, ilegal.

Uma vez, pelo carnaval, fizeram um jogo de homens contra 'mulheres' (homens vestindo roupas femininas, naquele tempo não se falava em travestis). Lembram-se? O Filipe (chauffeur do Sequeira) era o rei do carnaval e o Horácio (ajudante de camionista) a rainha. O Mata-Ratos, passeado no triciclo do Gazcidla, "um 'preto' para o Beira-Mar". A dada altura, o Zé Lufango escondeu a bola debaixo da saia, passou toda a defesa da equipa dos homens e foi metê-la na baliza adversária. Golo! das mulheres, ruidosa e alegremente festejado pela assistência. Gargalhadas a monte.

Por falar em assistência. Não posso esquecer o Zé Ricardo, o Zé Ratinho e outros que, com um fôlego fenomenal levavam os noventa minutos (não havia períodos de compensação) a gritar em altos berros pela equipa da casa, incentivando-a com a exteriorização da sua paixão, sem recurso a megafones, gaitas ou baterias!

Enfim... A crónica vai longa e enfadonho ninguém me lê. A escrita, confesso, fascina-me sobremaneira, para mais quando a nostalgia se apodera de mim - mas se não fôr lido, em que terei sido útil?

Volto à carga um dia destes.

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contaco - albufeirasempre@sapo.pt

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