A ATRIBULADA VIAGEM DA CARAVELA BOA ESPERANÇA A ALBUFEIRA
ZÉ DA(s) GALÉ(s) ![]()
Está, finalmente, desvendado o mistério da ausência da caravela Boa Esperança do concerto "Sons Ardentes" (o tal do candeeiro que mandou o músico para o hospital).
O site do Município, como se lembram, havia anunciado a presença da réplica da embarcação latina utilizada pelos navegadores portugueses dos Descobrimentos junto à praia dos Pescadores, para servir de cenário ao espectáculo. Em seu lugar, inexplicavelmente, surgiu uma lancha da Marinha de Guerra, por acaso muito folclórica, porventura por se tratar de uma missão de paz. Como aquelas que na Guiné, na guerra colonial, com luzes psicadélicas e distribuição de chocolates pretendiam cativar os indígenas.
Após várias tentativas, infrutíferas, de chegar à fala com o comandante do navio, Almirante Bártolo Meo-Diaz, ALBUFEIRAsempre conseguiu obter de um porta-voz da tripulação (que solicitou o anonimato por temer represálias do Governo) a revelação de que a ausência em Albufeira se ficou a dever a uma sucessão de equívocos que culminou com uma intoxicação colectiva da marinhagem.
Segundo aquele porta-voz, a caravela zarpou do porto de Lagos, manhã cedo, com destino a Albufeira, navegando à vista de costa (Bártolo Meo-Diaz só tem carta de patrão de costa, por sinal comprada - perdão! - tirada na capitania de Al-Buhera). Porém, passada Armação de Pera, o comandante, embora conhecedor profundo da costa do Allgarve d'Aquém-mar, começou a achar estranha a orla marítima - agora mais pomposamente chamada de "frente de mar". Por exemplo, nos Salgados, em vez da lagoa, descortinou a muito custo uma pequena poça de água rodeada de casas inestéticas por todo o lado, menos por um, que é o campo de golfe. Depois, quando pretendia guiar-se pelo farol da Baleeira, pura e simplesmente, não o viu, uma vez que o mesmo se encontra tapado por uma vivenda de um novo-rico da noite algarvia que conseguiu assenhorear-se da falésia que, para os outros cidadãos, é domínio público marítimo. Mais à frente, ficou totalmente deslumbrado (no mau sentido) por um conjunto de construções incaracterísticas, tipo lego, sobre um tanque que ele julgou ser o antigo tanque de rega da várzea da Orada. Finalmente, chegado à praça forte de Albufeira, desconheceu por completo a costa, uma vez que o Passeio dos Tristes (onde ele em novo vinha ao engate) se sumiu por completo. A agravar a situação, não conseguiu ver (nem podia - já não existem!) a tradicional balaustrada da esplanada sobre a praia do Peneco e o muro do cais Herculano.
Resultado, achando-se de rumo perdido - resolveu voltar para trás.
No regresso, apertando a fome aos marinheiros, pararam na praia da Galé para lanchar umas bolas de berlim, que compraram a uns brasileiros mal-encarados e mal-cheirosos. Azar: o recheio estava estragado (presumivelmente estragado, não vá o diabo tecê-las!) e o lanche traduziu-se numa enorme intoxicação colectiva que os levou, com as calças numa mão e a outra a tapar a boca, a visitar a retrete do apoio de praia do Zé Carlos. E o que lhes valeu foi o bom vinho novo que ele lá tem (às escondidas, mas bom!).
Retomada a viagem, aportaram a Portimão, onde vão degustar a partir de hoje umas maravilhosas sardinhas assadas.
E nós, albufeirenses, ficámos a ver navios ! Mais precisamente, a ver a lancha da Marinha ... e o candeeiro a abater-se sobre o violinista. E este a ver estrelas.
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