(sexta) feira de poesia
António Aleixo

Quem só veste o que lhe dão
Vive sempre num inferno:
Traz sobretudo no verão
E anda em camisa no inverno.
Poeta, não, camarada,
Eu sou também cauteleiro;
Ser poeta não dá nada
Vender jogo dá dinheiro.
Não há nenhum milionário
Que seja feliz como eu:
Tenho como secretário
Um professor de liceu.
Como és vil, humanidade!...
Não olhas para as desventuras:
As chagas da sociedade,
Podes curar, e não curas.
Não sou esperto nem bruto,
Nem bem nem mal educado:
Sou simplesmente o produto
Do meio em que fui criado.
Sei que pareço um ladrão...
Mas há muitos que eu conheço
Que, sem parecer o que são,
São aquilo que eu pareço.
Engraxadores sem caixa
Há aos centos na cidade,
Que só usam da tal graxa
Que envenena a sociedade.
Para a mentira ser segura
E atingir profundidade,
Tem que trazer à mistura
Qualquer coisa de verdade.
Que importa perder a vida
Em luta contra a traição,
Se a Razão, mesmo vencida,
Não deixa de ser Razão?
Com o mundo pouco te importas
Porque julgas ver direito.
Como há-de ver coisas tortas
Quem só vê em seu proveito?
Uma mosca sem valor
Poisa, com a mesma alegria,
Na careca de um doutor
Como em qualquer porcaria.
Peço às altas competências
Perdão, porque mal sei ler,
Para aquelas deficiências
Que os meus versos possam ter.
Vós que lá do vosso império
prometeis um mundo novo,
calai-vos, que pode o povo
qu'rer um mundo novo a sério.




ZÉ D'ALBUFEIRA


