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Albufeira Sempre

Diário sobre Albufeira.

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(sexta) feira de poesia

albufeiradiario, 20.02.26

Casimiro de Brito

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                                                                                                                                                                                 d.r.

Poeta como Tu, irmão

Não sou mais poeta do que tu, irmão!
Tu cavas na terra a semente da vida,
eu cavo na vida a semente da libertação.

Somos partes perdidas dum só
que a razão de ser das coisas
separou. Não sou mais poeta do que tu, irmão.
A mãe que te gerou a mim me gerou —
não foi ela quem nos trocou
as mãos, a voz do coração.

Abandona um pouco a charrua, arranca
da terra os olhos cansados, e limpa
o sujo da cara ao sujo das mãos — onde
os calos são um só e as rugas da morte
caminhos cobertos de pó.

E olha
na direção do meu braço cansado, sem
músculos quadrados
nem merda nas unhas, mas que te aponta
o mundo onde as raízes do dia, a luta, o trabalho
reclamam suor
mas não te roubam o pão.
Arranca os olhos da terra, irmão!

Casimiro de Brito, in 'Solidão Imperfeita'

(sexta) feira de poesia

albufeiradiario, 13.02.26

Fernando Pessoa / Álvaro de Campos

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É Carnaval, e estão as ruas cheias
 

É Carnaval, e estão as ruas cheias

De gente que conserva a sensação,

Tenho intenções, pensamento, ideias,

Mas não posso ter máscara nem pão.

 

Esta gente é igual, eu sou diverso —

Mesmo entre os poetas não me aceitariam.

Às vezes nem sequer ponho isto em verso —

E o que digo, eles nunca assim diriam.

 

Que pouca gente a muita gente aqui!

Estou cansado, com cérebro e cansaço.

Vejo isto, e fico, extremamente aqui

Sozinho com o tempo e com o espaço.

 

Detrás de máscaras nosso ser espreita,

Detrás de bocas um mistério acode

Que meus versos anódinos enjeita.

 

Sou maior ou menor? Com mãos e pés

E boca falo e mexo-me no mundo.

Hoje, que todos são máscaras, és

Um ser máscara-gestos, em tão fundo...

(sexta) feira de poesia

albufeiradiario, 06.02.26
Sophia de Mello Breyner Andresen

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Jardim do Mar
Vi um jardim que se desenrolava
Ao longo de uma encosta suspenso
Milagrosamente sobre o mar
Que do largo contra ele cavalgava
Desconhecido e imenso.
 
Jardim de flores selvagens e duras
E cactos torcidos em mil dobras,
Caminhos de areia branca e estreitos
Entre as rochas escuras
E, aqui e além, os pinheiros
Magros e direitos.
 
Jardim do mar, do sol e do vento,
Áspero e salgado,
Pelos duros elementos devastado
Como por um obscuro tormento:
E que não podendo como as ondas
Florescer em espuma,
Raivoso atira para o largo, uma a uma,
As pétalas redondas
Das suas raras flores.
 
Jardim que a água chama e devora
Exausto por mil esplendores
De que o mar se reveste em cada hora.
 
Jardim onde o vento batalha
E que a mão do mar esculpe e talha.
 
Nu,áspero, devastado,
Numa contínua exaltação,
Jardim quebrado
Da imensidão.
Estreita taça
A transbordar da anunciação
Que às vezes nas coisas passa.
 
Sophia de Mello Breyner Andresen In DIA DO MAR

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