Cem anos de MÁRIO SOARES
Líder de massas
Eis como a imortal escritora e poeta Natália Correia, "uma das mais raras vozes lúcidas e independentes, no seu sentir como na sua participação activa, que se fizeram ouvir num período tão perturbado da vida portuguesa [PREC]", caraterizou o Dr. Mário Soares na sua obra 'Não Percas a Rosa - Diário e algo mais (25 de Abril se 1974 - 20 de Dezembro de 1975)'.
Zé d'Albufeira

d.r.
NATÁLIA CORREIA
[...] Mário Soares. Conheço-o tanto quanto o seu redondo gesto democrático me distribui desde há muito uma atenção calorosa que retribuo. Mas entre a proximidade afetiva e a distância política a que me coloca a minha ironia perante o seu ciclotímico socialismo marxo-liberal tiro a média da objetividade.
Vitalismo extrínseco. Campeador estrénuo e optimista de velhas lides antifascistas. Republicanismo no sangue. Socialismo por nostalgia zangada de um frustrado noviciado comunista que condenou muitos da sua geração a serem macilentos catequistas de Moscovo. Sensualidade política de que deriva o seu atrativo de líder de massas. Encarna o romântico gesto tribunício da 1ª República. Fecundo na oposição. Desastrado no poder. Pujante de simpatia ao ponto de nem pelos mais acérrimos adversários se fazer detestar. Joga com isso, o que, sendo uma vantagem tem o seu reverso na senda de uma chefia carismada que só bafeja aqueles que são nitidamente execrados e claramente amados. Predestinado para êxitos imediatos, retumbantes num clima emocional. O criticismo das situações estabilizadas é desfavorável à portuguezíssima ligeireza com que ataca os problemas. Está em perfeita osmose com o socialismo boémio do Portugal alfacinha, moçárabe de variadas e muitas indisciplinadas gentes, o país santo-antonista do deixa andar que o santinho acha o objecto perdido do desenrascanço nacional. Mestre da banda lisboeta «boa vai ela», a estrela do menino e do borracho, põe-lhe a mão por baixo.
