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Albufeira Sempre

Diário sobre Albufeira.

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Diário sobre Albufeira.

Este livro que vos deixo - preâmbulo

albufeiradiario, 05.09.20

Prefácio do Dr. Joaquim Magalhães

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                                                                                                                                                                   ALBUFEIRA SEMPRE

EXPLICAÇÃO INDISPENSÁVEL

O poeta António Aleixo, cauteleiro e guardador de rebanhos, cantor popular de feira em feira, pelas redondezas de Loulé, é um caso singular, bem digno de atenção de quantos se interessam pela poesia.

Embora não totalmente analfabeto - sabe ler e tem lido meia dúzia de bons livros - não é capaz, porém, de escrever com correção e a sua preparação inteletual não lhe dá certamente qualificação para poder ser considerado um poeta culto.

Todavia, há nos versos que constituem este livro uma correção de linguagem e, sobretudo, uma expressão concisa e original de uma amarga filosofia, aprendida na escola impiedosa da vida, que não deixam de impressionar.

Além disso, o tom sentencioso da maior parte das quadras que se reuniram e o facto de serem produto de uma expontaneidade, quase inacreditável para quem não conheça pessoalmente o poeta, justificam suficientemente a tentativa de dar a conhecer e de registar, em livro, uma inspiração raríssima, que seria injusto não divulgar.

António Aleixo compõe e improvisa nas mais diversas situações e oportunidades. Umas vezes, cantando numa feira ou festa de aldeia, outras, a pedido de amigos que lhe beliscam a veia; ora aproveitando traços caricaturais de pessoas conhecidas, ora sugestionado por uma conversa de tom mais elevado e a cuja altura sobe facilmente. De todas as maneiras, passeando, sozinho, a guardar umas cabras ou a fazer circular as cautelas da lotaria - sua mais habitual ocupação - ou acompanhado por amigos, numa ceia ou num café, o poeta está presente e alerta e lá vem a quadra ou a sextilha, a fixar um pensamento, a finalizar uma discussão, a apreciar um dito ou a refinar uma troça. E, normalmente, a forma é lapidar, o conceito incisivo e o vocabulário justo e preciso.

Os motivos e temas de inspiração são bastante variados. Note-se, porém, que não fere, com a habitual pieguice sentimental lusitana, a nota amorosa. E isto é bastante singular; uma ou outra pequena composição com esse caráter lírico foi quase sempre, de certeza, de inspiração alheia ou a pedido de qualquer moço amigo.

O que carateriza a poesia de António Aleixo é o tom dorido, irónico, um pouco puritano de moralista, com que aprecia os acontecimentos e as acções dos homens. E, no fundo, muito embora não seja um revoltado, é a chaga aberta de um sofrimento íntimo, provocado por certas injustiças, a fonte dos seus desabafos. Com efeito, não pode ser mais pessoal e mais subtilmente dada a Dor de um homem que tem mulher e filhos a sustentar com o mísero ganho de meia dúzia de cautelas por semana e vê todos os dias ir morrendo, sem possibilidade de assistência cuidada, uma filha tuberculosa:

«Quem nada tem, nada come;

e ao pé de quem tem comer,

se alguém disser que tem fome,

comete um crime, sem querer.»

Primavera de 1943

                                                                 JOAQUIM MAGALHÃES