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Albufeira Sempre

Diário sobre Albufeira.

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Poema de Ramiro Guedes de Campos

albufeiradiario, 05.04.18

Vila branca em mar azul

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                                                                                                                                                     d.r.

ZÉ D'ALBUFEIRA

Foi a partir deste lindo poema, da autoria do saudoso poeta Engº. Ramiro Guedes de Campos, publicado em 1945, que as autoridades administrativas locais de então retiraram o slogan com que, durante décadas, a nossa vila (posteriormente cidade) foi promovida no país e no estrangeiro - e que tão belos frutos deu em termos de projecção internacional.

Na verdade, nestes seus versos admiráveis, o poeta, melhor que ninguém, sintetizou as caraterísticas mais intrínsecas da velha povoação de pescadores do sul de Portugal.

Vamos publicá-lo por especial deferência da Família, que amavelmente nos cedeu cópia do original

Fazêmo-lo não somente como memória de um facto literário que influenciou decisivamente o passado e o presente da nossa terra, mas também e sobretudo como preito de homenagem, singela mas sentida, ao autor que, durante muitos anos, teve casa de férias em Albufeira.

 

Poema sobre Albufeira que em representação desta praia ganhou o Concurso de Poesias sobre as Praias do Algarve em 1945

 

Da rocha a pique sobre o mar, a vila branca
Parece espiar ansiosamente o horizonte.
De olhar assim o mar nada e ninguém arranca,
Como se o mar a amedronte.
As casas pobres sobre a praia são fechadas
Como muralhas, com vigias por janelas.
Vivem de costas voltadas
Para as ondas e as estrelas.
Dir-se-á que ainda há nestas casas o horror
Das escaladas dos piratas levantinos
Que vinham de surpresa, espalhando o terror,
Entre gritos de dor rebatos de sinos.
E é no Horror secular destas noites mortais
Que, a intimidar de longe, agressivos e agrestes,
A vila aponta ao mar como punhais
Lá no alto, dois renques de ciprestes.
 
E, no entanto, mar e céu, com tintas de prodígio,
Tingem a praia, aberta em rocha ocre e vermelha,
Dum azul tão azul que nem tem o vestígio
Das coisas reais e a nada se assemelha.
E o azul é musical, sobem nas marés cheias,
Nos cambiantes da água intraduzíveis notas,
Acordes musicais de que as semicolcheias
São, nas ondas em pauta, as asas das gaivotas.
A luz transforma tudo em pintura extasiada,
As coisas sublimando a aparência e o volume.
Quando à praia os galeões vêm fazer a aguada
Já não são os barcos mas toninhas em cardume.
As lanchas de manhã, com as velas latinas
Como brancos triângulos suspensos
Parecem acenar da água de “água-marinas”
À senhora do mar a procissão dos lenços.
Mas, ao sol por, descida a verga e a âncora a pique,
De regresso do sul,
Os barcos dançam, tontos, em despique,
Gingões, aos bordos, bêbados de azul.
O azul tudo: gaivotas, nuvens, mastros,
Rochas de renda, ondas de vidro, areias de oiro,
Tudo se impregna deste azul sem rastros,
As falésias, a praia, o ancoradoiro.
Só a vila lá no alto, a vila branca,
Branca do sal do mar amargo,
Tem outra sede que não se estanca
Nem com o azul do céu nem com o azul do largo.
 
Ó vila branca a pique sobre o mar!
És uma onda que se levantou,
Em pedra se transformou,
E assim erguida ficou
Com a crista de espuma a cintilar!
 
Albufeira, 21 de Setembro de 1945
 
Ramiro Guedes de Campos