(sexta) feira de poesia
albufeiradiario, 14.11.25
Natércia Duarte

Poema para uma migrante afogada
Tenho nos olhos um sol-pôr amargo
Sou sereia sem canto, naufragada
Não tive leme nem navio ao largo
Na vida que queria madrugada.
Leva-me o vento, olho o horizonte
Mas não vejo cais nem feliz acaso
Os sonhos de cá são rios sem ponte
O medo de lá é estéril e raso.
A seiva dos olhos, de chorar por ti
Ó terra que deixo, meu torrão em brasa
Na areia onde jazo é de pó e bruma.
Beijam-me as ondas, vou ficar aqui
Deitada na praia, gaivota sem asa
Meu sonho é agora de coisa nenhuma.